Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

Cânticos do Desterro (Conto)


Pendurados à beira do precipício.
Apenas dois míseros palmos de uma reentrância de terra escura e endurecida, salpicada por raízes retorcidas, nos separavam do vazio. O suficiente para mal acomodar o traseiro e colocar o ego em dia com as pendências. Além disso, repetindo uma experiência que tivera no deserto, sobrava a oportunidade única de contemplar a beleza da natureza em estado bruto, a harmonia oculta daquela gigantesca lacuna do relevo. Nem vale a pena mencionar os detalhes que nos conduziram e deixaram na presente situação. Atualmente vivíamos a parte mais excitante da tola desventura, melhor nos concentrarmos nela. O tempo escoava rapidamente, no seu ritmo insensível, exigindo atenção redobrada na postura corporal contra a força invisível que parecia nos atrair ao fundo daquele poço de almas. Até mesmo porquê, à mercê do desenlace, o antes e o depois desapareceriam no buraco negro das memórias órfãs, de autores anônimos.
Era desesperador contudo lançar o olhar na direção do abismo. Posso estar me contradizendo por obra da fraqueza e da vertigem. Flutuar num torrão ressequido, qual um minúsculo intruso na paisagem, restringia a perspectiva à lâmina de um pêndulo. A altura descomunal colocava em dúvida se estávamos mais próximos do céu ou do inferno. Havia nuvens sobre nós, retalhos suaves e plácidos como flocos de algodão. Sentia que podia tocá-las, que ficavam bem próximas das pontas dos dedos. Ao contrário do fundo sob nossos pés, cujas extremidades percebiam que o infinito residia ali, nos limites de um assento naturalmente desconfortável, bundas flácidas e esqueletos doloridos invadidos pela dormência.
Quando se colocarem numa enrascada dessas ao menos saibam escolher sua companhia. Ninguém sabe quanto vai durar a agonia, nem se o final será feliz. Meu companheiro de infortúnio se chama Sparta. Nome estranho, sempre achei. Os cacos de memória que restavam não informavam se alguma vez ele explicara o motivo de lhe batizarem assim. Mas como já andava de saco cheio dele isso carecia de importância. Suas idéias de merda nos colocaram naquela ínfima ravina projetada sobre o nada.
Andávamos tão dissociados que nossas conversas se tornaram apenas mentais. Se ele me ouvia, ou eu próprio ainda o escutava, sinceramente não posso afirmar. Jamais voltamos a nos encarar desde que caímos nessa armadilha. Algumas frutas na mochila e um resto de água numa garrafinha plástica tinham garantido nosso débil sustento nos últimos dois dias. Uma brisa suave e constante trazia refresco aos pensamentos confusos, dificultando assim o avanço da demência e renovando o ânimo. Não abrir a boca e falar bobagens era outra maneira de economizar as energias.
Enquanto devorava a metade de uma maçã, com casca, semente e tudo, lembrei o quanto Sparta podia ser místico em relação às suas empreitadas. Companheiro, havia me dito há meses, existe uma maneira de provar a existência de Deus.
Tive um velho professor de História que costumava comentar que para todo louco com uma idéia mirabolante existiam outros tantos dispostos a segui-lo. Sparta conseguiu apenas um. Entretanto bastou-lhe para desenvolver sua idéia de olhar a face do Criador. Aliás, quem dera fosse tão simples, pois a rigor seu plano apresentava matizes variadas e contrastes originais.
Não ergueremos uma torre atingindo o firmamento, como em Babel. Tal tarefa seria sobrehumana. Desceremos às profundezas. Para baixo todo santo ajuda. Se encontrarmos o Diabo, em contrapartida saberemos que Deus também existe.
Agora devem mais ou menos ter entendido como chegamos aqui. Após uma série de pesquisas complicadas, rastreando volumes senis, grossos e empoeirados nos corredores das bibliotecas, Sparta concluiu que as portas da morada infernal jaziam escondidas no fundo inatingível daquela vertente. Estávamos exilados no meio do desconhecido, no coração de uma selva sem nome, afastados de qualquer contato, porque o sigilo seria um componente fundamental ao sucesso da jornada.
Seu babaca, xinguei-lhe com toda força do pensamento.
Não suportaríamos encarar a luz divina, amigo. Ela nos cegaria em todo seu esplendor, ponderou. Precisa avaliar nossa jornada como um ato de contrição: o fogo demoníaco não consumiria nossos espíritos, blindados pela força pura da fé.
As divagações pretensiosas de Sparta momento algum afastavam a realidade crítica ao redor. Não tínhamos mais o material de escalada. Corrigindo: de descida. Os poucos metros acima que nos separavam de terreno plano e seguro tornaram-se então inatingíveis. A outra opção, a garganta abaixo, sequer exibia o que guardava. Não passava de um negrume longínquo, inacessível ao alcance dos olhos.
Me intrigava a possibilidade de que Sparta não tivesse a menor noção do beco sem saída que nos enfiáramos. Que suas constantes reflexões continuassem vagando entre delírios messiânicos, acalentados por desconexos ideais superiores. Sua cruzada fora detida no primeiro obstáculo, o fracasso das intenções se mostrava indiscutível ante às circunstâncias. Apesar disso, na sua total confusão íntima talvez interpretasse tudo como um recompensa celestial ou um castigo demoníaco. Deus estaria nos conferindo a chance de avaliarmos nossa pequenez ou o Diabo demonstrando o quanto as aparências são traiçoeiras? Ou seria o inverso? Gelava meu sangue imaginar que o líder da empreitada decidisse as lições aprendidas de acordo com um espírito otimista ou pessimista, rebelde ou conformado.
Percebe o problema, seu cretino? Notou que ficamos encurralados, aprisionados enfim numa rocha minúscula, incomunicáveis e segregados, sem avanço ou retrocesso, aguardando o final da contagem regressiva? A cavalaria não virá nos salvar no último segundo, Sparta.
Sua fé se revela extremamente decepcionante, camarada. Não enxergaria o Santo Graal mesmo que o encontrasse. Deseja segurança e garantia de êxito em questões que trafegam além destes valores terrenos.
Minha fé é tudo que me resta. Mas ela não impede que avalie as coisas como são. Fui reduzido a mero adereço dessa encosta. A expressão e a estima, a liberdade de ir e vir, me foram confiscadas. Sou o único responsável. Agi sem pensar, decidi por impulso e arrogância. Sequer disponho do consolo de descobrir se o veredicto veio de Deus ou do Diabo.
A cada segundo, a concentração exigida para firmar o corpo no assento incômodo redobrava de intensidade. Porém haviam poucas reservas vitais a recorrer. As pernas pairavam largadas e mortas sobre aquele despenhadeiro inclemente, dominadas por uma letargia absoluta, comprometidas pela circulação deficiente do sangue. As palmas das mãos, esfoladas e em carne viva, pouco auxílio podiam oferecer, procurando apoio em qualquer abertura. Anestesiadas pela dor e indefesas na ausência de esperança, teimavam em escorregar na superfície sebosa do terreno nauseabundo, atraídas pelo vácuo assombroso do abismo. A sacola não oferecia mais sustento, com exceção de um derradeiro gole de água. E as nuvens outrora alvas cederam sua pureza ao avanço viril da cor da fuligem.
Não saberia mais como rezar, rogar auxílio ou implorar piedade. Sparta acusara minhas crenças de serem frágeis e estava coberto de razão. O blefe de toda a existência ficava exposto perante nuvens negras, folhagens rasteiras e a bocarra que velava as portas da morada demoníaca. O suplício minara toda convicção filosófica ou espiritual, desnudando meu temperamento insosso, de convicções nulas. Entre a cruz e o tridente correria ligeiro para aquele que primeiro acenasse com a tênue promessa de salvação. A convulsão do choro se camuflava na revolta muda do desenlace medíocre, sem pompa ou circunstância, clarins ou trombetas.
O grito desesperado que soltei da garganta jamais derrubaria as muralhas de Jericó ou até os arbustos próximos. No entanto serviu para esfumaçar Sparta, despachá-lo em definitivo. Uma consciência torpe era algo inútil próximo ao fim. Fosse por um companheiro imaginário ou um alter-ego recalcitrante, o indício inconstestável de que a origem de minhas atribulações se incubava no meu interior caótico configurava-se insuportável. Ele alcançara a serenidade sem merecimento, descansava em paz noutra dimensão, provavelmente abrindo caminho ao dono que acabara de lhe conceder alforria. Se a morada era infernal ou paradisíaca... Sim, estou me contradizendo novamente.
A aragem agradável ganhara velocidade e anunciava tempestade. O frescor mais escaldante que experimentei até hoje. O sibilar agudo do vento passando entre as ramas e as folhagens densas da montanha representavam uma estranha cacofonia. A percepção comprometida tentava teimosamente descortinar algum sentido naquilo. Pareciam trechos musicais desencontrados, melodias pouco adocicadas e amorfas introduzindo uma coleção de cânticos de desterro. Um hino ao pobre indivíduo solitário, isolado do mundo naquela poltrona empedernida ridícula, prestes a ejetá-lo sem pára-quedas num vôo previamente condenado.
O frenesi do corpo em colapso embotava os sentidos. Inúmeros sonhos antigos de grandeza pareciam aptos a ensaiar sua patética despedida, conferindo um sabor ácido ao passado. Amores perdidos, sentimentos abortados, ideais melancólicos, promessas desfeitas, estratagemas engenhosos, transas consumadas, trepadas frustrantes, amizades ocasionais, talentos desperdiçados, emoções outonais. No descompasso generalizado, as notas do réquiem, os sons do exílio, o concerto de galhos e caules adquiriam formas sonoras estranhas, nuances excêntricas. O olhar procurava seguidamente um ponto de descanso, iludido pelos vórtices que invadiam as pupilas cansadas. As imagens alucinatórias eram da magnificência de um turbulento circo romano, onde a derrota seguia-se ao escárnio por parte da multidão ávida. Os polegares de patrícios e plebeus viravam-se para baixo, negando anistia ou compaixão. A cavalaria não apareceria mesmo no instante crucial.
Quando meu corpo morimbundo começou a deslizar rumo ao abismo uma última gargalhada foi o adeus que reservei à vida. Ou a saudação que destinei à morte? De qualquer modo, um misto de sarcasmo e desencanto. Nem Deus, nem Diabo. Muito menos, o dilema entre a cruz ou o tridente. Para baixo todo santo inegavelmente ajudava, conforme o finado Sparta. Minhas vãs esperanças miravam a coroa de louros do Imperador, o cetro reluzente em seu poder. A linha tênue entre a vida e a morte repousava nas suas mãos sagradas, no seu perfil divino, não importando mais o certo e o errado, a ilusão e a realidade. Não seria doravante cristão mas um súdito leal. Ao invés de um indivíduo desgarrado, um cidadão do império, temente ao panteão dos deuses pagãos, incensados nas oferendas.
Ave César, os que vão morrer te saúdam...

Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Crepúsculo dos Deuses


Remexer velhas notícias muitas vezes causa efeito retardado. O que passou em branco na época apenas talvez não tenha encontrado o momento certo para fustigar nossa percepção ou então acionar os mecanismos da reflexão. O texto a seguir foi publicado no UOL, no final de agosto de 2008:


Fatia de bolo de casamento de Diana e Charles é leiloada:

Uma grande fatia de um bolo preparado para celebrar o casamento de Lady Diana Spencer com o Príncipe Charles foi vendida por 1.000 libras (cerca de R$ 2.980), em um leilão no Reino Unido.

A porção tem a forma de um quadrado com 23 centímetros e havia sido dada a Moyra Smith, uma faxineira da residência real de Clarence House, em Londres, por um chef da família real, em 1981.

A fatia foi comprada por um colecionador privado do Reino Unido que deseja permanecer anônimo.


Fatias de bolo, fatias da vida... Mesmo transcorridos 28 anos.
Acho a história de Diana Spencer de uma fatalidade absoluta. Faço questão de citar-lhe sem o Lady ou Princesa. E de devolver-lhe o sereno nome de solteira. Charles é o maior exemplo de príncipe desencantado que conheço, o único sapo que beijado se transformou em algo pior e mais feio.
Deve haver algo de Jocasta ou Electra nisso tudo. Ora parecia que ela era sua mãe, ora ele posava de seu pai. Encará-los como um casal sempre esteve fora de cogitação. Mas não temos em nossos escribas atuais Sófocles ou Eurípedes. Resta ler sobre o imbroglio em revistas de diversas nacionalidades, nas “Caras” de todos os cantos. O que na Antiguidade Clássica era tragédia, na época contemporânea vira escândalo. Devoramos as dores alheias assim como consumimos doces em recepções. Ainda existe quem pense que nada foi perdido no caminho.
Lembro de ambos acenando na sacada do Palácio de Buckingham. A multidão em delírio acenando de longe (“Não me convidaram/Pra esta festa pobre”) e testemunhando a materialização do moderno conto de fadas. Contudo não nos restou nem Branca de Neve, nem Cinderela. Não temos mais também os Irmãos Grimm ou Charles Perrault. O que restava então para Diana? Naquele dia ela ainda dispunha de suas expectativas e de seus devaneios.
Aos poucos, cena após cena, ato sucedendo ato, ela tornou-se o personagem central desta tragédia anunciada. Vomitou tudo, menos a maçã envenenada que lhe ofereceram. Atirou longe suas esperanças, sem conseguir fazê-lo com o sapatinho de cristal que já lhe machucava os pés. A morte de Diana, ou seu assassinato como alegam alguns, não foi num túnel parisiense. Investigando aí nada se encontrará. Mas que tal recuar no tempo e seguir seus passos após os acenos aos londrinos amontoados, quando o balcão esvaziou e as portas do Palácio foram cerradas? Que preço imputamos a alguns para acalentar nossos sonhos.
Relendo a nota inusitada, é impossível evitar a sensação que o ciclo se fechou. Que tudo isso, no seu absurdo, apenas aconteceu para que uma fatia do bolo da noiva, dada a uma faxineira palaciana, fosse leiloada anos depois, dentro da nossa escala atual de valores. Ela varria a sujeira da realeza, sabia com quem lidava, nunca colocaria na boca uma maçã podre camuflada em guloseima. Exigir o que da teia do destino? Que em pleno século 21 Édipo assassinasse seu pai para dormir com a mãe? Ou que Electra matasse a mãe e o amante para vingar seu pai?
Jamais. Tempos Modernos. Restou apenas uma fatia ressequida da festa e um bater de martelo de leiloeiro. Uma princesa morta sem pavana e um príncipe vivo com cara de anfíbio.

Como é difícil não vomitar...

Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Ensaio Sobre a Cegueira


A justiça é cega.

O pior cego é aquele que não quer ver.

Em terra de cego quem tem um olho é rei.

O filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) estruturou seu pensamento sobre as relações de poder. Elas estariam parcialmente distribuídas na história da sexualidade, da loucura e das formas jurídicas. Assim, involuntariamente, um ser humano adoentado creditaria ao médico o poder de curá-lo. Num sentido correlato, o sabor científico acumulado deste, o dotaria então de um poder arbitrado convencionalmente de decidir a necessidade de uma internação, por exemplo, ou diagnosticar um desequilíbrio.
Esse esquema do panopticum, da sociedade que se vigia e pune através de múltiplos olhares (a ciência, a jurisdicão, a religião, os costumes), ao menos se equilibra quando os profissionais agem com consciência e ética, embora jamais anule a relação poder-saber. Quanto pior a atitude naquilo que lhe cabe, mais vicioso será o indivíduo que emergirá, podendo o mesmo processo estar embutido no sistema educacional, de forma geral. Assim, as diversas relações escapam ao controle, ganhando vida própria, não importa quão envenenadas estejam as conjunturas ou se fechemos comodamente os olhos às situações.
Se pudéssemos mesmo “ensaiar” a cegueira, além de dissertar sobre ela, com a mesma facilidade com que decoramos ditados populares... Teríamos um mundo em permanente escuridão, onde nada reluziria e portanto não haveria ouro. Reconstruiríamos os conceitos de feio e belo, talvez até fossem banidos em definitivo.
Redimensionaríamos as distâncias, as proporções, as formas e as perspectivas. Com o desenvolvimento dos outros quatro sentidos para compensar a perda da visão, o tato agarraria o abstrato, o olfato cheiraria os sentimentos, o paladar saborearia a fraternidade, a audição perceberia as batidas dos outros corações.

Seria naturalmente Um Ensaio Sobre Ser Humano.

Cárcere Sem Grades


As crianças, intuitivamente, detectam o xis de quase toda questão.
Vamos acompanhar uma delas, dentre tantas. Encantada com o mundo ao redor, cada dia uma nova descoberta ou, ainda melhor, um novo enigma. Quando vê um temporal, gruda o rosto na vidraça da janela, especulando se o aguaceiro que desaba não se constitui de longos cordões de prata ligados ao céu. Puxando um deles, talvez faça descer um belo anjo ou um bebê rosado, quem sabe.
Na frente do espelho encontra-se com a própria imagem. Toca nela apenas para reparar que ela faz o mesmo com ele. Não há muito calor humano, percebe, e o motivo não reside apenas no vidro ser gelado. Interagem mas o fato daquela réplica agir como macaco de imitação logo perde todo encanto. Porém um maior perdura. Afinal haverá um irmão gêmeo do outro lado, esperando ser libertado?
Enfim, a televisão. Ainda desligada e não sabe como acioná-la. Ou deixaram o controle remoto muito no alto do móvel. Acordou cedo, os adultos ainda dormem. Na frente da tela escura recorda da dedução mágica: existem vários bonequinhos ali dentro, anõezinhos adoráveis. Hoje, enfim, talvez quebre esta vidraça, destrua este espelho, e os liberte para si, sem imaginar que também libertaria a si próprio.
Olha resoluto a vidraça encharcada, o espelho seco e a tela escura, prestes a definir tudo. Entretanto, do nada, sua mãe passa por ele, diz que o ama, beija seu rosto, afaga seu cabelo e, num último gesto antes de se encaminhar à cozinha, liga o aparelho sedutor. Tudo se ilumina e nossa criança imediatamente se aprisiona, esquecendo os anões encarcerados na sua frente, o gêmeo congelado atrás de si, os anjos aguardando serem puxados lá fora.
Qual será o próximo programa?

Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Nossos Risos (Poesia)


Não deveriam ser risos?

O abraçar de duas almas,
Uma toada fascinante,
A calma de uma pousada,
Um impulso aliciante.

Fico procurando indícios,
Os pedaços que sumiram,
Perseguindo os vestígios,
As alegrias que partiram.

Por quantas enseadas mais,
Quais caminhos enveredar,
Descobrir enfim nossa paz,
E reviver o prazer de amar.

Seu rosto guarda respostas,
Seu olhar, novas perguntas,
No sorriso encontro a ajuda,
A força de manter a procura.

Silêncio, dor, distância,
Imensidão e esperança,
O vento carrega o desejo,
A chuva refaz o desterro.

Velas ternamente guardadas,
Sophias apoiadas num abraço,
Fotos de histórias adornadas,
Cedinho luzindo ao mormaço.

Afinal, não devem ser risos?


Estendo minha mão,
Beijo a sua imagem,
Tento daqui te tocar,
Delineio tal viagem.

O contato é sempre mágico,
Como o céu beijando o mar,
Lábios úmidos e tão cálidos,
Eternizando o nosso gostar.

Entregues fechamos os olhos,
Abraçados detivemos o tempo,
A noite veio repleta de sonhos,
Achamos juntos o firmamento.

Minha alma chora largada,
Teu coração procura o meu,
Qualquer trajeto é estrada,
À benção que Deus nos deu.

Onde procuro, onde te chamo,
Te mostro o Sol, aponta a Lua,
Subindo no tapete de estrelas,
Alcançamos juntos as alturas.

Se viver não são apenas sonhos,
Menos ainda, anseios desfeitos,
Além de casualidade ou destino,
A escolha se descobre sorrindo.

Logo serão apenas nossos risos.

Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Amor e Redenção (Conto)


Era uma vez... Essa é a história de 16 e 17.
Nossos personagens não têm nome, pois vivem sob tratamento numa instituição especial, onde isso pouco importa. A doença que os aflige também não possui nome, apesar disso ter muita importância em lugares assim. Mas nenhum pesquisador ou cientista até hoje a batizou com aquele emaranhado hermético de termos em latim. Estão confusos sobre a moléstia, jamais viram um caso similar. Para sua grande surpresa, no mesmo dia surgiram, simultâneamente, dois pacientes apresentando aqueles estranhos e fenomenais sintomas. O último detalhe que se preocupariam portanto seria com seus respectivos nomes.
Infelizmente, constataremos adiante que os principais interessados não podem ajudar. São incapazes de dizer como se chamam. Chegaram aqui após uma série de paradas e peregrinações, percorrendo uma longa linha de estabelecimentos do gênero. Onde o caráter excepcional do seu problema passou despercebido, classificado muitíssimo aqüém de sua verdadeira extensão. Sem parentes ou amigos que insistissem junto às autoridades médicas, dependeram da eventualidade de um exame feito acidentalmente para surpreender os plantonistas.
Assim, 16, um homem, e 17, uma mulher, apenas carregam num crachá o número de seus quartos adjacentes. O destino demorou décadas em reuni-los, mas enfim cumpriu seu papel. Viveram a maior parte do tempo afastados de tudo e de todos, encerrados em ambientes de solidão e penumbra. Ambos ainda são jovens, em torno dos 30 anos, e o mal que os acomete acompanha-os desde o nascimento. Segundo o boletim de entrada, trata-se de uma variação original do autismo, embora certas peculiaridades impeçam de classificá-los assim. Com a palavra, o diretor da clínica, cujos nomes omitiremos, sendo irrelevantes no curso dessa narrativa:
- O autismo é um distúrbio agudo no qual, desde a mais tenra infância, o indivíduo não consegue desenvolver relações sociais normais com as pessoas e o mundo ao redor, preferindo o silêncio e se comportando de modo repetitivo na sua alienação, através de certos atos e rituais. Sua causa continua um mistério. É uma patologia diferente do retardo mental, pois não existe uma lesão.
- E no que afinal os sintomas de 16 e 17 os impedem de serem considerados autistas?
- Apesar da sintomática deles conter todas estas características existem outras que nunca lidamos... É complicado de explicar aos leigos... No ponto de partida da moléstia podemos considerá-los autistas típicos. À medida que pesquisamos seu córtex e o encéfalo somos obrigados a retroceder no conceito, pois descobrimos que, de algum modo, existe uma atividade subconsciente excêntrica, de metodologia normal, auferida por modernos e sofisticados equipamentos de atividade cerebral.
- Como assim? O que significa isso?
- Que no seu subconsciente percebem a vida em volta, igual a qualquer um de nós. Raciocinam razoavelmente, desejam coisas materiais, tiram conclusões, têm vontades naturais. Apenas não conseguem a partir daí comunicá-las ou concretizá-las como eu e você. A limitação da doença é uma barreira que os torna prisioneiros do próprio corpo físico. Nossos esforços, até hoje infrutíferos, concorrem no sentido de procurar um modo de driblar ou saltar este obstáculo. Seja através da ministração de drogas químicas ou terapias de estimulação dos sentidos. Tudo é muito tênue e sutil, os resultados obtidos se revelaram nulos, sem qualquer avanço mínimo ou perspectiva de redenção...
Agora conhecem algo mais sobre 16 e 17. O que não significa tanto, pois ninguém sabe o que se passa no seu interior, quais as expectativas e os sonhos que regem o seu íntimo. A batalha entre seus anjos e demônios permanece oculta, soterrada sob forças inexplicáveis, nunca combatidas anteriormente. A equipe responsável pelo delicado tratamento, por razões próprias, sempre providenciou para que jamais se encontrassem ou dividissem uma sala de atendimento. Estavam instalados em quartos vizinhos todavia a divisão de horários tornava impossível um encontro ou simples cruzamento casual nos corredores. Aos olhares individuais, eles ignoravam a existência mútua.
Certo dia, entretanto, alguém cometeu um grave erro. Se foi o enfermeiro responsável por ele ou a ajudante encarregada dela, persiste ainda a discussão. O fato é que, numa manhã distante, eles foram sentados lado a lado na seção de fisioterapia motora. Recentemente,16 apresentava notáveis progressos na utilização das mãos e das pernas. Porém, sem controle algum das reações ou vestígio de vontade lógica, além do ritual obsessivo de apertar uma bolinha de espuma, deixá-la cair e em seguida juntá-la, somente para repetir o processo horas a fio. E se lhe tomassen o objeto quando estava no chão, cessava a atividade como sequer a houvesse iniciado. Sem esboçar as menores interjeições de desagrado ou expressões de súplica.
Embora bastante próximos naquele recinto, as reações de 16 e 17 eram de absoluta falta de interesse um pelo outro, numa total passividade ao ambiente. Conservando uma postura rígida ao extremo, desprovida de qualquer sinal de vivacidade, parecia que os camisolões hospitalares trajados os tornavam invisíveis. Quem os visse julgaria que dois belos manequins de vitrine haviam sido despachados noutro endereço, pois sua aparência atraente e asseada se configurava a rigor asséptica e neutra. Ele começou o seu habitual esquema de aperta, larga e apanha bolinha de espuma. Os olhos opacos e vidrados, mexidos de cima para baixo, e vice-e-versa, numa atitude mecânica, não despertavam qualquer reação nela, assim como não provocaria nele se os papéis ficassem invertidos.
Num dado momento, em uma das quedas, a bolinha rolou mansamente na direção do pé direito de 17. Ele se inclinou automaticamente na sua direção para apanhá-la. Ao erguer o corpo de volta à posição estática que mantinha, roçou levemente na sua coxa e no seu braço.
- O que foi isso, esse tremor? – indagou o subconsciente dele.
- Que arrepio estranho e gostoso! – constatou o subconsciente dela.
- Quero fazer de novo... Tocar nela outra vez...
- Por que ele não repete aquele gesto?
Não estava ao alcance do desejo dele ou da vontade dela, por maiores tais que fossem, retomar a maravilhosa experiência. Exceto se a bolinha realizasse por acaso o mesmo trajeto, obrigando-o a encostar-se nela, involuntariamente, quando se abaixasse para recolhê-la. Suas mentes agora fervilhavam com o inusitado calor captado pelo contato de seus corpos mas não havia caminho para expressar a sensação.
Após uma drástica reprimenda do comando do setor nos funcionários desatentos, 16 e 17 foram então prontamente reconduzidos aos seus quartos, recuperando assimo tempo perdido no equívoco matinal, com a imediata antecipação da terapia áudio-visual.
- Quero ficar perto dela!
- Não me afastem dele!
- Nunca a vi antes!
- Desejo vê-lo sempre!
A única ocorrência que os mantinha próximos naquele instante, apesar de isolados nos seus aposentos, além da doce lembrança daquela impressão deliciosa, era um aparelho de televisão exibindo o mesmo vídeo. O diretor da clínica acreditava na estimulação sensorial indireta e na prescrição medicamentosa como fonte de uma reação neurológica que os libertasse da disfunção. O monitor exibia um filme obviamente romântico, em seu ponto culminante: ao crepúsculo, à beira de um lago, um casal, reclinado lado a lado, abraçava-se de forma intensa, a seguir se beijando apaixonadamente, fisionomias extasiadas.
- Deve ser isso que ele me causou!
- Aquele delicioso roçar nela...
A música crescia no encerramento e podia ser escutada nos corredores, onde num canto reservado, o enfermeiro e a encarregada causadores do indesejável encontro de 16 e 17 discutiam acaloradamente.
- Jamais me apoiou, querido. E nas horas de crise, invariavelmente, culpa a mim. Às quartas-feiras, o horário da manhã é sempre dela. Há um mês nós estabelecemos de comum acordo o cronograma. Você errou e nem comigo admite isso.
- Tudo bem, não nego... Mas se assumir o engano estou perto do olho da rua, Noelle. A melhor solução está em não mencionarmos uma divisão prévia. A desculpa da falha de comunicação na véspera livrará nossas caras. Não despedirão dois de uma mesma tacada. Existe uma carência de profissionais especializados.
- O problema é outro, já concordei com a justificativa... Não há mais diálogo algum entre nós. Nem consideração. Falamos línguas diferentes. Se alguém precisasse pagar pelo engano, seu egoísmo me sacrificaria sem pestanejar...
Culpas ou incongruências deixadas à parte, o exame de atividade cerebral realizado depois do almoço em 16 e 17 resultou alarmante. Os níveis atingiram subitamente índices acima do normal, numa freqüência inédita nos anais médicos. A quantidade de calor medida indicava um processo de cozimento mental, na ausência de melhor classificação. Os organismos do casal também registraram um preocupante aumento de temperatura, obrigando a imersão em banheira gelada.
- Qual a explicação, doutor? A probabilidade de ambos sofrerem juntos os mesmos revezes seria praticamente nula...
- Respostas... Se as tivéssemos disponíveis como imagina a Psiquiatria Clínica viraria uma ciência exata. Talvez algo maior influencie a situação. Esse caso sempre me perturbou. Como se a humanidade saltasse um passo à frente na sua evolução.
- Sua resposta soa mais mística do que científica... Em que dois indivíduos tão limitados representariam um novo e revolucionário estágio no desenvolvimento humano?
- Sua pergunta soa mais acadêmica do que jornalística. Uma manchete cheia de sensacionalismo seria mais adequada do que seu descrédito. E a exclusividade da história sempre lhe pertenceu. Conto que seja bem generoso conosco na matéria.
- Fique tranqüilo. Vou saber aproveitá-la e serei grato a vocês... O que decidiram afinal?
- Vamos separar o estranho casal e encaminhá-los ainda hoje para instituições distantes. Não posso desconsiderar o fato concreto de que, na única oportunidade que estiveram próximos, desencadearam dentro de si uma reação poderosa. A primeira medida para entender o significado disso é mantê-los afastados, puxando-os aos níveis clínicos padrões. Desconhecemos aquilo com o que lidamos. As perspectivas podem ser anárquicas ou catástróficas. Ao entardecer já terão partido daqui e tudo se aquietará para as partes envolvidas.
- O senhor não exagera? A resposta não é menos complexa? Além disso, abriu mão de realizar um estudo único na sua área?
- Exagero é ficar encerrado dias num laboratório de testes sem retornar para casa. O meu casamento está desmoronando. Minha esposa e eu não nos falamos mais sequer nas poucas vezes que sentamos à mesa. Parece que temos uma mordaça na boca e no coração. Nos amamos e somos incapazes de externar esse afeto. Abro mão desse estudo único, como afirmou, mas não da única mulher que desejei viver.
A ordem fôra energicamente transmitida nos alto falantes: os pacientes 16 e 17 deveriam ser logo preparados para uma viagem que os levaria ao distanciamento eterno e seguro. Seguiriam em ambulâncias diferentes, às 18 horas, rumo ao seu próximo destino. Aguardariam na sala de espera especial da clínica, sentados cada qual frente uma mesa, um par de cubículos divididos por uma grade que possibilitava a visão mas não o contato físico. Os enfermeiros ainda providenciaram uma jarra e um copo feitos de metal, para evitar acidentes quando sentissem sede. Um par de canetas hidrocor e blocos de desenhar para passatempo eram de praxe, apesar de inúteis aos doentes daquela categoria.
O estado geral deles estabilizara graças a uma dose química cavalar que forçara a queda da temperatura e cujos fortes efeitos colaterais também reduziam a atividade acelerada do cérebro. Uma medida emergencial e perigosa, mas que viabilizava seu deslocamento, porque o diretor e a cúpula do estabelecimento não queriam cogitavam o risco de perdê-los enquanto responsáveis.
No corredor, contudo, ao se cruzarem rumo à sala de espera, 16 e 17 tiveram uma reação deveras extraordinária. Arregalando os olhos em total desespero, pareceram se devorar e implorar pelo outro, grunhindo palavras que ninguém compreendera. Chegaram até a balançar os corpos trôpegos, como aspirassem se libertar, inutilmente. A própria catatonia provocada pela sedação e a inércia natural da doença minaram suas pretensões aparentes, embora fosse impensável aos internos considerar isso um desejo consciente. Eram incapazes de atos e iniciativas deste porte, um ponto indiscutível.
- Quero ficar com você, querida...
- Sua presença me deixa viva!
- Será que você pensa igual?
- Você entende o que sinto?
- Tem idéia desse sentimento, 17?
- Eu te adoro, 16!
Superando as adversidades do sonífero e da moléstia, 16 lembrou-se, na ânsia de declarar seus sentimentos para ela, da cena do filme romântico exibido mais cedo. Num gesto assombroso, que paralisou a todos que ali circulavam, demonstrou o sucesso da terapia motora diária. Apressado pela luz baixa do crepúsculo, que indicava a vinda da hora do adeus, agarrou o copo de metal e bateu-o fortemente na madeira da mesa, deformando-a. Encheu a depresão com a água da jarra e desenhou no dedo indicador direito, com a caneta pilot, dois olhos, um nariz e uma boca, encimados por um cabelo curto. Fez o mesmo na esquerda, com exceção do adorno de uma cabeleira feminina. Encarando 17 ternamente, inclinou um dedo pintado na direção do outro, encostando-os, fazendo a simulação do longo e ardoroso beijo, às margens do lago. O largo sorriso que preencheu sua face abatida e serena enfeitou também a dela, como reflexos no espelho ao entardecer.
Aqui vamos encerrando nossa história. Poderíamos ter contado a de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda ou Abelardo e Heloísa. No entanto, preferimos narrar a de 16 e 17, torcendo que tenham compartilhado deste prazer. Quanto aos nossos apaixonados, no cair daquela tarde, após a explosão da emoção e exaustão da mente, prosseguiram separadamente sua trajetória, afastados pela intolerância humana. E convictos na paz de seu universo interior que se reencontrariam inevitavelmente, fundindo-se num mundo inacessível aos que não sonham ou proibem sonhar, numa região cuja chave de acesso é o amor assumido e a redenção obtida.
Há muito tempo eles vivem lá. Era uma vez...

Domingo, 20 de Abril de 2008

O Bom Vizinho (Conto)


Todas as manhãs, exatamente às seis horas, o velho Lars descia com o saco de lixo rumo à calçada. Era uma tarefa cansativa para aquele corpo surrado. Entretanto, segundo fontes confiáveis, nunca deixou de fazê-lo durante os últimos quinze anos. Apesar da idade avançada possuía uma saúde de ferro. Desconhecia gripes ou males súbitos. Ignorava a friagem, o calor excessivo ou mesmo a atmosfera úmida. Qualquer um que tivesse o sono mais leve, ou o hábito de madrugar, ouvia diariamente aquele arrastar monótono pelo corredor e seguindo pela escada abaixo. Com o passar do tempo alguns se indagavam como aquele ancião solitário podia produzir tantas sobras, acumular tantos restos. Não que se importassem muito em descobrir hábitos do inofensivo vizinho. Apenas uma curiosidade momentânea do espírito. Igual à solução de uma charada ou o arremate em um diagrama de palavras cruzadas. Talvez para saciar inutilidades ele tivesse vivido por tantos anos.
Naquela manhã não houve sinal do pacato Lars arrastando seu fardo. Nem todos perceberam a ausência. Era domingo. A grande maioria aproveitava para se levantar bem tarde, quase na hora do almoço. Eu estava acordado porque mal conseguira pegar no sono. A noite em claro fizera-me agarrar a qualquer indício de vida ao meu redor. Sons de buzina, murmúrios distantes, discussão de amantes, lamúrias de bêbados, roedores famintos, bater de asas noturnas. As redondezas eram pródigas em oferecer ao anoitecer seu leque de variedades: movimento de trânsito, inferninhos, encontros, desencontros, bares, ratos e morcegos. O suficiente para que uma aventura terminasse em tragédia ou levasse os participantes para a cama mais próxima. Típica zona de caça, abatedouro de corpos ansiosos pelo prazer físico. Em locais assim, o sexo podia ser apenas uma isca, com o caçador levando a pior. O final da madrugada testemunhava gente enroscada terminando uma trepada num canto escuro. Ou cadáveres torcidos que jamais iriam transar novamente, aliviados das suas posses ao invés das roupas. Tudo assistido por uma fauna noturna inusitada. Bicho homem e animais nojentos de toda espécie. Um zoológico aberto em todas as direções. Cada predador lutando pela presa desejada.
Lugar perfeito para a cabeça de porco onde me enfurnara. Devem ter ouvido falar de histórias inacreditáveis sobre as manias de ricos excêntricos. Garanto-lhes que às relativas aos pobres excêntricos são incomparavelmente mais bizarras. O proprietário da construção, que ocupava o quinto andar, vivia envolvido em práticas místicas e crenças esotéricas. Estas lhe trouxeram confusão de idéias e caos financeiro, pois empregava o que auferia dos aluguéis em figas, búzios, baralhos de tarô, incensos, velas, cristais, materiais de magia em geral e livros de ocultismo. Apresentava-se como um iniciado em doutrinas secretas, percebendo cruciais indícios divinos nos fatos corriqueiros do cotidiano. Pretendia interpretar fielmente sinais e nos perseguia inquirindo sobre aquilo que tínhamos sonhado na véspera. Outros residentes completavam o leque, cada qual com sua peculiaridade. Havia a soprano do terceiro andar, incapaz de partir um cálice com seus agudos, porém uma diva absoluta na destruição dos tímpanos alheios. No mesmo pavimento, um completo fanático por educação física procurava modelar o corpo incessantemente, maltratando o piso com suas piruetas. Acima, na unidade contígua ao do velhinho, um casal de homossexuais que ganhava a vida como drag-queens numa boate fajuta do bairro, berravam repetidamente que nunca mais aceitariam dividir o palco fazendo juntas o mesmo número. E assim por diante. O curioso é que todas essas figuras tornavam-se identificáveis pelo som que produziam, pelo vestígio sonoro ou barulho que transmitiam regularmente a despeito da distância, ultrapassando paredes, portas e andares.
Não pareciam mesmo gente de verdade. Lembravam personagens de antigos e batidos programas humorísticos. Aqueles tipos clichês, tradicionais, que arrancam gargalhadas fáceis repetindo anedotas similares. Talvez não devesse ser tão rigoroso ao julgá-los, pois não sabia se me enxergavam igualmente. O nascer do sol vinha se tornando bastante contrangedor, um incômodo que tirava qualquer capacidade de bom raciocínio ou julgamento. Os bons vizinhos de cada dia não tinham culpa da dor que a aurora proporcionava. Seus ruídos, surrados ou originais, vinham assim me mantendo vivo, alimentavam de algum modo meu espírito.
Existiam ainda tipos mais assustadores: aqueles sem particularidade alguma, desprovidos de loucura ou desequilíbrio. Não conseguia distinguir um do outro, só produziam silêncio e mesmice. Desfilavam suas fisionomias anêmicas e despojadas de vivacidade sob absoluta inexpressividade. Deviam ser gente boa num certo nível. Mas não para mim. Eram incapazes de aguçar meus sentidos. Se intercalavam aos quartos vazios em igual quantidade. No início da noite já estavam recolhidos nos seus, escondendo-se da própria sombra. Apagavam a luz, como já haviam desligado a si mesmos. O clique do interruptor valia como uma despedida surda, um estalido solitário. Felizmente, outros ali colaboravam para a minha vigília.
Assim, aguardando o curso natural dos ruídos esperei a contribuição de Lars. Um minuto depois das seis, já sabia que ela não viria. O velhote tinha uma pontualidade britânica e assombrosa. Conservava uma disciplina espartana. Não se deixava ver a troco de nada, era reservado em excesso. Sumia a maior parte do dia fazendo sabe-se lá o que. O quarto permanecia em silêncio absoluto. Portanto saía de casa, embora ninguém o visse partir. À noite, quando vez ou outra se cruzava com ele no corredor ou no saguão, esboçava um sorriso simpático e dirigia algumas poucas palavras de cortesia. Muito comedido e tímido. Todavia confiável, afável. Seus gestos estudados denunciavam a tentativa de autocontrole acima de tudo. Um recurso de camuflagem. De resultado infrutífero. Transmitia uma mágoa íntima, um perceptível desconforto, sob a proteção de uma barreira invisível que repelia qualquer um além do estágio das amenidades. No mais, nada que chamasse atenção. Trajes simples, leveza no andar, uma absoluta falta de pressa no semblante. Uma criatura de porte médio e idade avançada, o que tornava seu esforço cotidiano de puxar a sacola de lixo pelo longo corredor e descê-la três lances até a portaria, algo digno de menção.
Meu jeito era completamente diferente. Displicente, deixava o lixo se acumulando para poupar viagens. Amontoava a pia de latas usadas e garrafas descartáveis. A pequena lixeira jogada ao lado do fogareiro abarrotava-se de caixas de papelão, restos de alimentos e plásticos amarrotados. Pura preguiça. Minha energia se encontrava crítica ao final do dia. E de manhã a última coisa que me preocupava a cabeça seria a limpeza do ambiente. Assim, empurrava aquilo sempre com a barriga. Tocava como podia até o momento de tomar vergonha. Reservava a rigor os domingos para desempenhar a tarefa. Como dormira mal certamente adiaria essa obrigação. Talvez deixasse para amanhã. Ou depois. Ou no domingo seguinte. Entretanto, não se tratava realmente de uma prioridade. Quando fosse possível acabaria acontecendo e tudo então recomeçaria.
A coisa estaria ainda muito pior se me alimentasse com regularidade. Porém meu relógio biológico andava todo desarranjado. Não por viver como um solteirão convicto ou um homem solitário. O cheiro e o gosto da comida vinham me deixando enjoado, indiferente. Sentia a boca pastosa, pegajosa, sem mencionar que trocava a noite pelo dia seguidamente. Meus dentes andavam sensíveis, a gengiva latejava e a penúria me impedia de procurar tratamento. Nas horas avançadas ficava alerta, sentia-me cheio de vitalidade, embora uma estranha compulsão de procurar algo se fizesse sempre presente. Assim, naturalmente, detectava os ruídos de qualquer categoria ao redor.
As batidas na porta forçaram-me a levantar. Estava vestido igual na véspera. Não havia roupa a trocar mesmo. As roupas usadas, suadas e amassadas acumulavam-se em volta da cama, também ansiando por sua vez de receber minha atenção. Além do mais, deitara do jeito que chegara da rua. Não me passou pela cabeça que fosse estranho alguém chamar tão cedo. O fato dissolvia a monotonia.
- Ah, que bom que não o acordei! Já está até vestido. Não sei se você percebeu. O velhinho não desceu com o lixo hoje. Será que adoeceu? Tadinho!
Ela nunca cogitou que eu podia estar dormindo ou descansando com a intenção de espantar uma tremenda enxaqueca. Violar a vida alheia era a atitude mais normal do mundo. Sua gordura enchia os olhos. Balançava o corpanzil como uma sanfona. Não parava quieta. Ia da esquerda para a direita, voltava, deixava qualquer sujeito enjoado. Costumava ser precavida na sua gula. Ao menos, não filava comida alheia. Trazia consigo um volumoso pedaço de sanduíche, que felizmente nem pensou em oferecer. O bolso do roupão escondia o que parecia um grande pacote de biscoitos. Acabou de mastigar outro naco e recomeçou logo suas considerações.
- Ele anda tão pálido. Na certa não se alimenta direito. Já ofereci duas ou três vezes de lhe fazer um lanche e sempre recusou. Um homem solitário, na idade dele, às vezes se atrapalha com as necessidades. Vira uma criança indefesa. Os parentes, normalmente, pouco ligam. Restam os bons vizinhos, os de coração.
Entrou sem qualquer cerimônia. Abriu toda afoita o invólucro das bolachas já bem instalada na única cadeira livre. Devorou três sem respirar e só aí me estendeu o pacote. Considerava que o biscoito era o passaporte para me invadir sem exibir o mínimo constrangimento. Recusei a oferta com um gesto brusco e sentei numa cadeira onde repousavam jornais e revistas antigos. Se ela pedisse algo líquido para acompanhar a comilança perderia seu valiosíssimo tempo. A geladeira andava tão vazia quanto à embalagem dela ia se tornando.
- Minha filha, por exemplo... A morena alta que despenca aqui de dois em dois meses. Sim, porque aquilo não é visita. É um acidente de percurso. Acha que ela se preocupa como eu vivo entre uma vinda e outra?
- Sua filha parece ser uma boa moça, senhora. Atualmente é difícil dispor de uma brecha nos compromissos. Todos ajeitam as coisas como podem.
- Não estou me queixando da vida, rapaz. Pelo menos alguém ainda me procura ou bate na minha porta. Ao contrário do que ocorre com o velho Lars. Vocês jovens acham isso bobagem, claro. Utilizam a solidão como parte do charme.
Contribuiu para a urgência de uma faxina sacudindo os farelos da roupa e deixando-os ir ao chão. Nem se preocupou em recolher a sujeira antes ou depois. A quitinete era uma bagunça total e seria ridículo pretender protestar. Revirei os olhos para o teto, disparado a parte mais limpa do cômodo. Minha visão dorminhoca de raios-X esforçou-se por penetrar nas vigas e no concreto localizando Lars em seu pequeno mundo, sem sucesso. Ela aguçara minha curiosidade, porém a sonolência se aproximava rapidamente e a disposição estava comprometida. Não chegava a enxergar urgência alguma na novidade surpreendente. Aquele ancião tinha o direito e o dever de uma única vez evitar se repetir, mormente em tamanha banalidade.
- Ora, é apenas um velhinho inofensivo. A gente se acostuma com eles. Fazem parte do cenário. Nas poucas oportunidades que esbarrei nele aqui no prédio o achei muito legal. Nunca deixou de sorrir. No início achei que era afetado. Mas na verdade revelava uma certa complacência. Como se entendesse a gente e os nossos problemas imediatamente. Resultado da experiência. Deve ter vivido e visto um bocado de coisa. A senhora age com humanidade ao demonstrar sua preocupação. Não creio ter acontecido nada demais. Encheu-se da rotina e decidiu jogá-la para o alto. Tem até esse dever, como todo mortal. Se pudesse faria como ele.
A gorducha suspirou. Satisfeita por devorar a guloseima encarava a realidade cheia de expectativa e compreensão. Deixara de balançar o corpo, aquietara-se. Olhou-me docemente, buscando pelas palavras certas.
- Vive aqui somente há dois anos, Zack. Eu estou ao lado deve ter uma década. Só perco para o senhorio e o velho Lars. Ele chegou aqui faz quinze anos. O doutor me contou a estranheza que sentiu ao vê-lo a primeira vez. De como uma nuvem de melancolia parecia cercá-lo. Tristeza nos gestos, na atitude, como alguém fadado a um destino ingrato. Pouquíssima bagagem, uns apetrechos muito dos esquisitos e mistério de sobra. Tipo calado, apesar de educado e cortês. Nunca se soube do passado dele. Onde cresceu ou viveu. Se foi casado ou teve filhos. Não recebe visitas jamais. Ninguém pergunta sobre ele ou o procura. Como se houvesse caído sobre nós, remetido de um lugar longínquo ou de uma época distante. Pena...
A descrição captara minha atenção. Ela falava com genuíno interesse e uma pontinha de paixão sutil. Ou vice-e-versa. Acima de tudo, aquela robusta e insaciável senhora mastigava também pormenores da vida alheia e conseguira abrir meu apetite. Imaginei rapidamente possíveis aspectos da biografia do velhote. Um ricaço arruinado que conservara a educação de berço e procurava escondê-la para não revelar sua trágica e definitiva derrocada... Um cirurgião habilidoso que vacilara fatalmente numa mesa de operação e acabara expulso da profissão, cujas finas luvas ocultando as suas mãos eram uma amarga reminiscência... Um criminoso, um antigo condenado da justiça que quitara sua longa pena e padecia agora do contato perdido com o mundo... Ora, o terreno era fértil às especulações. Estava diante de um perdigueiro de respeito, que me iniciara na arte de farejar as coisas dos outros.
- O que se pode fazer, dona?
- Pelo que passou, nada. Hoje nos resta certificar se ele precisa de ajuda. Um comportamento de anos e anos não é interrompido sem um bom motivo. O silêncio ao amanhecer foi estarrecedor. Contava com aquele ruído e ele não veio.
Menos mal, eu não era o único maníaco no prédio.
- Sugere batermos na porta dele? Na cara e na coragem?
- O máximo que pode acontecer, filho, é sermos escorraçados. Pelo menos saberemos que ele está vivo. Teremos cumprido nossa parte. Agido como vizinhos de verdade, em solidariedade. Daqueles que não se transformaram em números numa porta.
- Simpatizo com o velhote. Só acho delicado invadir sua privacidade.
- Invasão é uma palavra um pouco forte, Zack. Não iremos forçar a entrada. Tentaremos estabelecer contato. Obter um sinal de vida dele. Checar se está bem ou precisa de auxílio. Ele não é nenhum bicho-papão. Compreenderá a boa intenção. Ficará lisonjeado, até mesmo aliviado, ao constatar que alguém pensa nele. Demonstrar preocupação e atenção é outra maneira de transmitir amor.
Concordei logo com a cabeça. Não havia o que retrucar. A senhora Marino passava o dia se empanturrando de guloseimas. Todo aquele açúcar cristalizara em seu organismo induzindo uma viúva de meia-idade às boas ações. Ela era uma pessoa carente, desajeitada e sem desconfiômetro. Batia na porta nos horários impróprios, arquitetava missões de resgate a velhinhos solitários, zelava pela conservação do lugar nas reuniões de condomínio. Acumulara um vasto catálogo de informações sobre os moradores, fazendo sabe-se lá que uso prático de tanta baboseira e insignificância.
No corredor, tropeçamos de imediato no terceiro heróico morador do nosso andar, o jovem Ericsson. Vinha de uma óbvia noitada de farra, encharcado do aroma de perfume barato. Trôpego, aproveitou para apoiar-se em mim na tentativa de recompor-se. A fisionomia grave da senhora Marino fulminava-o com uma censura muda. Mas o rapaz era gente boa. Esperto e inofensivo. Trabalhava como técnico em um laboratório de análises químicas no Centro. Um tipo bastante observador, arguto, em função da profissão. Já o vira especular sobre indícios que passariam em branco à maioria. Sabia juntar peças e costurar fios soltos. Naquele ambiente sórdido, desprovido de charme, contribuía com uma nota de sofisticação através do raciocínio e da lógica. Já resolvera os mais prosaicos enigmas do cotidiano com uma clarividência capaz de tirar nosso senhorio de seu ponto de equilíbrio. Certa vez encontrara, sem se deslocar, a chave perdida do painel de força, reconstituindo apenas os passos do proprietário desde a hora do café da manhã. Vira seus dedos gordos lambuzados de margarina impregnados com uma espécie de farelo escuro. Ao saber que este detestava pão preto, concluiu ser aquilo na verdade limalha de ferro e que havia guardado por acidente a chave no pote de manteiga. Por essas e outras, antes que ela abrisse a boca para denunciar os malefícios da boêmia desregrada, calou-a com um comentário típico de sua percepção sobrenatural.
- O saco de lixo do velhote não estava na calçada. Adoeceu?
- É o que nós pretendemos verificar, mocinho – retrucou friamente a dona. – Saiba que existem inúmeras maneiras de se adoecer. Uma vida pouco regrada, devassidão constante e tendências notívagas são fórmulas para comprometer a saúde e destruir o corpo. Muito me admira que desconheça que não só de badalações vive um homem.
- Assino embaixo, senhora. Meus pais sempre diziam isso.
- Pelo jeito tapou os ouvidos sempre que falavam.
- Não! As orelhas estavam desimpedidas. A música é que tocava no volume máximo e não dava a menor chance.
- Não gosto de deboches, rapaz. Posso passar sem eles. O senhor continua com o mau hábito de tocar sua música bem alta, aliás. Nos horários mais impróprios. Dificulta que seus vizinhos descansem espalhando aqueles grunhidos típicos de roqueiros alcoolizados e drogados. Ninguém faz questão de compartilhar dos seus gostos duvidosos. Use um fone de ouvido ou toque seu som mais baixo.
- Prometo. Se a madame garantir também que agora assistirá às suas fitinhas pornográficas sem fazer tanto estardalhaço. Minha sobrinha adolescente me visitou na semana passada e foi constrangedor. Os gemidos foram de ensurdecer. Ninguém se excita com tal sinfonia. Use uma mordaça ou escolha vídeos infantis.
O cara pegou pesado. Fiquei surpreso com a aspereza. Ele trouxera à tona um fato verídico: a mulher costumava mesmo se divertir fazendo aquilo. Nos horários que lhe apetecesse, com freqüência e intensidade. Curioso como tudo hoje continuava se referindo aos sons peculiares: agora acrescentávamos as melodias estrondosas e os rugidos eróticos na lista. Qual seria então o meu, afinal? Ou me enquadraria na asséptica categoria dos seres silenciosos, livre de classificação? Ora, nada me tornava tão especial no pardieiro. Cabia aos demais identificar meu ruído.
A senhora Marino encarou-o com uma expressão de raiva contida. Não pretendeu negar a verdade, pois sabia que não havia como escondê-la. Talvez incrementasse as suas fantasias sexuais que os vizinhos machos participassem do seu pequeno show. O que ocorria na verdade. Impossível não tomar conhecimento de tanta animação solitária. Duas vezes me masturbara acompanhando a sessão à distância. Ericsson certamente já entrara nessa também. Porém era uma particularidade da dona e ela pretendia que permanecesse assim. O silêncio prosseguiu constrangedor num amanhecer tomado de barulhos e seus significados. Fiquei recolhido, aguardando um som salvador.
- Reunião matinal de condomínio?
O guru soara o gongo. Nosso senhorio tinha a notável capacidade de materializar-se num passe de mágica, como que vindo do nada. Esta qualidade sim constituía um real prodígio esotérico, ao contrário das baboseiras que manipulava ou pretendia controlar. Chegara trajando sua longa túnica branca de dormir. Dizia ser um paramento para iniciados em alta magia, um complemento de seu espírito liberto ao percorrer as esferas superiores do sono. Ele sesteava um bocado. O estrondo de seu ronco nas primeiras horas da noite invadia todos os cantos do pulgueiro. Sua trajetória pelo nirvana custava à sanidade dos que ansiavam por silêncio e paz.
Era irônica a referência ao encontro de moradores. Não havia mais algum ali. Pagava-se barato por nada. Ou caro por tudo. Dependia da postura otimista ou pessimista de cada um. As paredes mulambentas viviam carecas e há muito não recebiam um tônico revigorante. A umidade nas estruturas solitárias exalava o cheiro do mofo e se casava feliz com a poeira dos corredores abandonados à própria sorte. A grana que entrava era totalmente destinada às práticas cretinas do proprietário e bancava sua folga de cochilar horas a fio. Corrigindo, para não melindrá-lo: a sua crescente percepção dos registros cósmicos e o desenvolvimento dos seus poderes latentes.
- Se existisse ainda tal tipo de coisa por aqui, senhor...
- Kalhani, senhora Marino. Simplesmente Kalhani. Nem senhor, nem doutor. Apenas meu nome de humilde postulante na congregação do Crepúsculo Reluzente. A sagrada e milenar ordem dos Cavaleiros da Luminosidade Oriental. A seu serviço.
- Tudo bem... Esse troço aí, que seja... Mas o prédio está um horror. Imundo dentro, caquético fora. Vai ver é a razão pela qual minha filha nem aparece mais. Trata-se de uma moça fina, bem casada, desacostumada da falta de limpeza. Além de habitado por tipos que ignoram a palavra respeito. Que ofendem sem cerimônia.
- Ora, senhora – interrompeu Ericsson. – Pode ser que sua filha não a visite pela imundície da moradia. Ou pelo refinamento que a posse de um marido rico trouxe para a vida tediosa dela. No entanto, a minha sobrinha foi afugentada por outro tipo de sujeira. Da que sai da boca e da garganta de madames incontroláveis.
- Calma, calma – apaziguou Kalhani, enquanto os dois remetiam-se mutuamente para os quintos dos infernos. – Saudaram o sol apenas para serem agressivos um com o outro? Absorvam a luz, irmãos, e purifiquem suas intenções.
- A questão não é a velocidade da luz, Kalhani – quebrei meu voto de silêncio, finalmente. – O problema é a velocidade do som, o modo como os ruídos fazem parte de nosso cotidiano. E o incômodo que sua ausência provoca.
- Compreendo, Zack. A falta do velho Lars e seu arrastar monótono.
Antes de confirmar, ele me interrompeu com um gesto superior.
- Não se impressionem. Nada de adivinhações. Percebi tudo através da aura coletiva de vocês. Existe uma lamentável carga contínua de desequilíbrio no ar. Uma sistemática que busco aperfeiçoar em todos os momentos, acima das convenções.
- Que cara de pau! – fulminou a gorducha, que parecia ainda maior quando estava enfurecida. – Então todo mundo agora é clarividente! Provavelmente fui a primeira pessoa a dar pelo fato. Depois, o que paira na atmosfera desse seu estabelecimento é o cheiro constante de bolor.
- Por favor, senhora Marino – implorou Kalhani, pedindo clemência com ao mãos. – Vamos focar nossa energia naquilo que realmente importa. Suas queixas são mais apropriadas para as reuniões de condomínio. Estamos todos muito preocupados com o senhor Lars. Perdemos tempo discutindo enquanto ele pode precisar de ajuda. Estou com a chave mestra. Por que não me acompanham?
Ninguém se opôs à sugestão do guru e a missão de salvamento de um velhinho indefeso começou após tantas discussões inúteis. O grupo avançou em algazarra, cada qual abordando o assunto que mais lhe interessava. Como nenhum dos heróis de araque abriu mão de suas preferências, todos acabaram resmungando às paredes. A senhora Marino e o jovem Ericsson acabaram por voltar à discussão de minutos antes. Kalhani entoou um mantra como forma de inspirar nossas melhores intenções. O barulho terminou atraindo alguns atrasados recalcitrantes. A passagem sob alarido do bloco dos bons samaritanos pelo terceiro andar adicionou ao bravo grupo Larissa, a soprano, hoje inteiramente afônica, segundo explicou por gestos e grunhidos. Quase de imediato, Norton, o mestre em modelagem física, apareceu capengando e reclamando com seu vozeirão que fora acordado à revelia. Suas explicações adicionais e confusas sobre “seu estiramento agudo do músculo adutor da coxa direita”, devem ter produzido eco suficiente para colocar à espera as esfuziantes She e Female, a dupla de travecas, no alto da escada do quarto andar. Não bastasse, apareceu ainda um dos silenciosos, típico espectro sem eira nem beira, nome ou sobrenome, seguindo-nos como um zumbi. O exemplo perfeito do autômato seguindo sinais vitais que ele próprio não possuía.
- Não precisa também esta tropa toda... – iniciou a senhora Marino com o tom mais professoral possível.
- Só faltava mesmo essa! – protestou She, assessorada por Female. – Estamos no nosso andar e o velhinho é nosso vizinho. Você veio lá de baixo se meter em assuntos fora da sua alçada, querida.
A réplica indignada dela foi abafada pelos grunhidos inúteis de Larissa tentando explicar sua rouquidão. Norton, solidário, sem diminuir um mínimo o tom habitual, usava sua contusão como consolo e exemplo “do que sofre um profissional dedicado na tentativa de atingir à perfeição”. Por outro lado, buscando serenar nossos humores, Kalhani recrudescia a intensidade do seu mantra. Ericsson, conformado, me olhou de relance sinalizando o zumbi, que assistia tudo com o olhar vidrado, perdido no meio à palidez do rosto. O contraponto ideal àquela agitação matinal desmedida.
- Porra, colega... Eu passo a noite na gandaia mas você que parece ter se esbaldado a valer. Já vi que dormir cedo não faz tão bem assim como dizem!
Caímos no riso ajudando a aumentar a confusão. O sujeito limitou-se a concordar timidamente, balançando os ombros arriados de modo conformado, pouco ligando se aquilo era bom ou ruim, engraçado ou de mau gosto. Permaneceu apático, ao mesmo tempo que o barulho diminuía e a toada mística chegava ao fim.
- Acho que agora devemos tratar do que viemos fazer, amigos. Muito reconfortante saber que existe tamanha generosidade nesta pequena comunidade. Além do mais, acredito mesmo que o velho e cortês Lars precisa de ajuda. Fizemos algazarra para acordar um batalhão e nenhum sinal dele. Para quem sempre se levanta cedo, esta manhã dorme como uma pedra. Infelizmente, temo pelo pior. Vamos logo com isso. Nosso bom vizinho conta conosco.
O grupo se aproximou da porta em completo silêncio, procurando demonstrar uma seriedade que não possuía. Havia uma preocupação comum que, no entanto, era incapaz de superar a insegurança e a expectativa. Eu havia dito no início que o sentimento dominante era de desconforto, a partir do qual a curiosidade surgia com toda sua morbidez. Estivesse bem ou mal, o destino do velhinho não mudaria a existência de ninguém, apenas exercitaria um sentido efêmero e ligeiro de compaixão, mesmo que todos simulassem sentir sua perda profundamente. Um bando de ratinhos procurava seu pedaço de queijo. Puta merda, pensei, me deixei arrastar na correnteza da banalidade. Engrossei o coro da emoção vazia. Somente o Zumbi apresentava coerência naquele exército perdido. Arrastava-se por instinto.
Kalhani retirou a chave mestra do bolso interno da túnica. Antes de girá-la na fechadura, bateu de leve uma, duas, três vezes. Colou o ouvido à porta e aguardou alguns segundos. Nenhuma resposta ou sinal de movimento lá dentro. Repetiu o gesto colocando mais força e rapidez, chamando-o pelo nome. Nada. Escutávamos apenas nossa respiração, misturada com uma ou outra palavra sussurrada. A matilha agrupada fingia estudar o próximo passo, exibindo um bom senso ou conhecimento que não dispunha. Sob o signo inatacável da benevolência e do amor ao próximo, éramos um bando de cruzados esperando pelas decisões de um líder anacrônico.
A senhora Marino aproveitou o impasse para roçar ao máximo o corpo musculoso e rijo de Norton. O jovem Ericsson fez igual com Larissa, aproveitando o pouco espaço do corredor e o ajuntamento. She e Female se agarraram contritas, acariciando-se mutuamente, exibindo em público o que normalmente reservavam para sua intimidade. O Zumbi vibrava o corpo a cada pancada inútil do senhorio na porta, parecendo prestes a se desintegrar. Era um camarada mesmo estranho. Não recordava tê-lo visto muitas vezes, se é que o vi alguma. Começava a detestar tudo aquilo, podia estar enfim dormindo após a noite em claro. Não adiantava qualquer arrependimento neste momento. Também tinha meu lado mórbido e estava curioso.
Desistindo de chamar a atenção de quem não sabia ao certo morto ou vivo, Kalhani girou decidido a gazua na fechadura e nos descortinou os domínios pessoais do velho Lars. A turma entrou afoita, meio que tropeçando uns sobre os outros, cessando abruptamente a bolinação desenfreada, todos indóceis na intenção de descobrir o que ocorria.
O aposento nada apresentava de excepcional. As cortinas grossas, cerradas com precisão, filtravam praticamente toda a luz, reforçadas por um forro de plástico negro. Um lustre rachado e empoeirado, pendendo inclinado do teto por uma corrente retorcida, iluminava com limitações o minúsculo espaço. O ambiente era desagradável e soturno, nada condizente com a impressão simpática que o velhinho transmitia. O ar pesado indicava a necessidade rápida de renovação. Havia uma tênue camada de poeira no chão e fomos imprimindo involuntariamente nossas pegadas no assoalho. Parecíamos antigos exploradores tateando com cuidado em terreno desconhecido.
As dimensões eram iguais ao do meu quarto, dois pavimentos abaixo. À esquerda, havia uma geladeira entreaberta, desligada e, segundo percebi, vazia. Na pequena pia em frente, restos do que pareciam ser montes de terra úmida ou argila. Vários sacos plásticos para retirar lixo, do tipo que todos se acostumaram a vê-lo carregar até a véspera, amontoavam-se largados ou amassados. Na metade do caminho para a cama, uma mesa riscada, colorida pelos restos da mesma argila, amparava bandejas de plástico, pequenas pás e instrumentos de metal diversos. Nunca vira aquele tipo de coisa, sequer tinha idéia de sua utilidade. No canto, à direita, mais sacolas, estas inteiramente abarrotadas, estufadas, fechadas com um nó duplo e cuidadoso, guardando sabe-se lá o que. Ao lado, estirado, repousava em meio aos lençóis rotos o velho Lars, exibindo o branco dos olhos, boca entreaberta exalando mau hálito, pele sem viço, amarelecida, cabelos desgrenhados e oleosos.
- Meu Deus, meu Deus – começou a soluçar a senhora Marino. – Chegamos tarde, o pobre homem está morto. Esperamos muito tempo para vir...
Esquecendo a recente altercação do corredor, as drags procuraram consolá-la, amparando-a lado a lado. Female retirou da pequena bolsa a tiracolo, da qual nunca se separava, um lenço rendado que ofereceu gentilmente a senhora Marino. O restante cercou o leito cautelosamente, procurando certificar-se da sorte de Lars.
Kalhani reclinou-se sobre ele e procurou o pulso. Puxou um braço esquálido e cheio de feridas, enterrado na roupa de cama sebosa e embaralhada, tentando distinguir algum vestígio de atividade vital naquele organismo enfraquecido. A sensação, enquanto ele variava a posição do toque, era que qualquer pressão demasiada iria esfarelar o corpo depauperado dele. Parecia prestes a rachar, decompor-se em mil pedaços, um arremedo humano flagelado por vicissitudes que lhe arrasavam sem piedade. O cheiro de morte e doença o envolvia num abraço apertado, apaixonado.
- A pulsação está bem fraca mas ainda vive! – anunciou exultante.
Felizmente todos tiveram o bom senso de evitar palmas ou gritos de comemoração. Ficava óbvio que seu estado de saúde era gravíssimo. Mais do que inspirar cuidados ele talvez precisasse de um autêntico milagre para sobreviver. Uma série de tremores sacudia-lhe o corpo periodicamente, enquanto balbuciava palavras incompreensíveis. Uma espuma esbranquiçada brotava viscosa do canto dos lábios anêmicos, escorrendo vagarosamente pela face rachada, reforçando a sensação de abandono. As pernas se cruzavam lânguidas numa atitude defensiva, como que protegendo num reflexo desesperado os últimos sinais vitais ainda disponíveis. Sim, estava vivo, entretanto tudo seria uma questão de tempo. Ou mesmo sequer disso.
- Temos de chamar o pronto-socorro – sentenciou Kalhani.
- Que esperança! – replicou Ericsson. – Aqui, nesta parte da cidade? E logo num domingo? Até eles chegarem, isso se vierem, o velhinho já embatucou.
- Nós precisamos fazer alguma coisa por ele...
- Vamos com isso, pessoal! – recuperou-se a senhora Marino. – Um de nós vai ligando para a emergência do hospital. Os outros ficam aqui, ajudando da forma que puderem. O importante é agirmos e não largarmos o velho de mão.
O senhorio se prontificou a descer e fazer a chamada telefônica, disposto a exigir um urgente atendimento. Ericsson começou a fuçar em volta atentamente, soltando diversas interjeições de surpresa. Larissa providenciou um pano umedecido para refrescar a testa de Lars, enquanto as drags se esmeravam em arrumar-lhe a cama, ajeitando o travesseiro sob sua cabeleira grisalha. Me aproximei de Norton e da senhora Marino que cochichavam.
- Nunca pensei que ele vivesse nessas condições – murmurou ela. – Ele parecia tão distinto, organizado. O quarto é sujo, mal cuidado, não tem nada...
- Ora, ele pode estar na dureza – ponderou Norton.
- Falta de dinheiro não serve como desculpa, querido - sentenciou, colocando o braço parrudo em torno dos seus ombros largos. - Nenhum de nós é abonado, porém sempre se procura fazer o melhor. Minha aposentadoria é uma piada, o que não impede que o lugar onde moro seja decente. Por estas e outras vivo me aborrecendo nas reuniões de condomínio. Um mínimo de arrumação e limpeza nunca foram artigos de luxo. Pelo visto sou a única que pensa assim aqui.
Era engraçado escutá-la dizer tanto, e com tanta propriedade, após o exército de farelos que havia espalhado no meu quarto, uma hora antes. Evitei a temeridade de apontar a contradição entre teoria e prática. Porque ela observara certas incongruências acertadamente. A imagem que todos faziam de Lars era bem outra. Seu porte nobre e maneiras dignas, desabavam ante à visão do estado das coisas ali. O resultado evidente do desleixo não podia ser produto de um único dia de mal estar ou enfermidade. Tudo fora largado havia tempo, manifestando falta de esmero.
Aliás, isso tornava o quadro ainda mais esquisito, alçando Lars como pivô de uma polêmica dominical. Se o velhinho descia sempre com seu lixo, numa rotina diária, meticulosa e inalterável, o que carregava dentro dos sacolões afinal? A poeira se acumulava por todos os cantos, misturada com a estranha terra avermelhada. A geladeira, conforme informava o atento Ericsson, também estava imunda, mas não com vestígios de comida ou mantimentos. Muito menos encontrara pratos, copos ou talheres nos armários abaixo da pia, com exceção dos vários suportes plásticos e apetrechos similares aos que repousavam sobre a mesa encardida. Em suma, nada indicava que se alimentasse, nem que fizesse uma faxina regular em seu cubículo. Contestando tais deduções óbvias, opunha-se o tradicional desfile matinal com o qual todos se habituaram desde que vieram morar no lugar. Ele parecera até hoje asseado, cuidadoso e metódico. No dia que provavelmente seria seu derradeiro neste mundo, a imagem desmoronava de forma trágica e definitiva.
- Meu Deus... Fico imaginando se vou ter um fim igual. Um velho esquecido, sem ninguém, deixado no meio da sujeira, amparado por desconhecidos...
Ericsson abandonara suas conjecturas, exprimindo um pensamento que acometera todos perante o panorama que assistíamos. Coloquei a mão sobre seu ombro procurando animá-lo. Talvez não passasse de um clima de ressaca, embora a própria senhora Marino, seu desafeto, se emocionasse com o tom condoído das suas palavras. Antes que ela pudesse consolá-lo, Larissa se aproximou ansiosa, puxando Norton pelo braço, disparando uma saraivada de grunhidos inteiramente absurdos.
- Baixa o timbre, menina! – implorou o atleta esmagado pelo nível insuportável dos grasnados. – Te acalma, tenta explicar por gestos, sei lá, cacete...
Ela respirou conformada e, lembrando que uma imagem vale mais do que mil palavras, desenrolou um papel grosso, encorpado, um pouco amarelado, antes sinalizando tê-lo encontrado largado ao lado da cama, enquanto se ajoelhara aplicando outra compressa molhada na fronte do velho. Ericsson de imediato despertou do seu torpor de misericórdia, revelando um brilho febril no olhar ao lançar-se sobre o curioso achado. Não foi o único enfeitiçado, pois todos ao redor estavam envolvidos no clima de mistério.
Para mim aquilo pouco significava. Tratava-se de um mero desenho, um tipo de esboço, feito toscamente a lápis preto ou carvão. Não era extraordinário, mas não chegava a ser ruim. As linhas traçadas com certa firmeza e orientação revelavam um jovem rosto de mulher, de origem nitidamente européia. Um tipo de qualquer forma estranho e exótico, uma espécie de beleza antiga, perdida no tempo. Os olhos grandes e arredondados saltavam em magnetismo, dominando o nariz minúsculo, a boca delgada e bem definida, o queixo ovalado e delicado, emoldurados por um cabelo negro preso na altura da nuca. O único enfeite era um diadema cingindo-lhe o alto da testa estreita e um discreto colar de contas em torno do pescoço esbelto e elegante. Tudo exercia grande fascínio e sedução, apesar de parecer datado e fora de época.
Agarrando o desenho enquanto o esticava totalmente sobre a mesa, Ericsson passou levemente o polegar e o indicador sobre o papel. Percorreu-o de canto a canto, sentindo sua textura, procurando eliminar alguns vincos, examinando tudo com a máxima atenção. Parava em determinados pontos realizando seguidos movimentos circulares, sorrindo maroto de satisfação sabe-se lá o porquê. De vez em quando erguia a mão, cheirando e verificando a ponta dos dedos. A esta altura, o poder hipnótico da figura e dos gestos ritmados dele capturara o grupo, exceto She e Female que prosseguiam remexendo na roupa de cama sem jamais encontrarem a disposição ideal. Até o Zumbi, que desde nossa chegada se mantivera à parte, guardando em reverência o leito à distância, aproximou-se e ganhou vida na presença da magnética imagem. As duas mulheres tentaram não dar o braço a torcer, escondendo infrutiferamente uma inveja íntima e profunda. Os homens tiveram a respiração alterada, escravizados pelo par de olhos elétricos e linhas sensuais que pulavam da figura, sublimando seu desejo como fosse possível.
Ericsson, que jamais negligenciaria sua condição de detetive amador, fugiu do encantamento e se aproximou resoluto do velho, erguendo seu braço fino e anêmico, embora não com intenções de verificar-lhe a pulsação. Examinou a mão descarnada e sardenta de alto a baixo, trazendo os dedos para bem perto da vista.
Pareceu bastante interessado nas unhas. Mesmo à distância, não havia como deixar de reparar que eram mal cuidadas. Estavam roídas e manchadas, tomadas por uma espécie de nódoa escura. Tentando enxergar seu interior, Ericsson puxou o quanto pôde a pele no topo, procurando expor ao máximo a fresta natural das cutículas. Uma expressão de triunfo iluminou seu rosto, enquanto se dirigia ansioso aos grandes sacos de lixo atados com nó reforçado perto da cama. Desamarrou o laço duplo e foi enfiando a mão em seu interior, como se já soubesse exatamente que tipo de coisa descobriria ali. Continuou a fuçar sem hesitar, até que demonstrou achar aquilo que esperava. Sem perder a pose, ergueu lentamente um nariz cor de barro em tamanho normal e algo que lembrava uma orelha humana, igualmente modelada. O conteúdo bizarro, se não fosse em argila, indicaria os despojos da atividade escusa de um sádico serial killer escondendo as provas de sua crueldade insana. Contudo a solução não seria assim tão simples. Os poucos pedaços mal eram tocados se esfarelavam, retornando ao pó de onde vieram. Pela primeira vez o silêncio dominava a situação.
Estávamos tão absortos, ora no desenho, ora no mágico desempenho do nosso investigador oficial, que sequer percebemos Kalhani vindo discretamente por trás, numa leveza digna dos seres etéreos e superiores. Sua surpresa foi instântanea com o repentino estado das coisas reveladas em sua ausência no refúgio do estranho Lars.
- O que é tudo isso? – balbuciou, indicando o desenho e os despojos.
- As respostas de todas as perguntas – disparou eufórico Ericsson, assumindo em definitivo o controle da brilhante performance que vinha oferecendo.
- Antes de se empertigar todo, seu convencido, existem coisas mais importantes a tratar do que sua vaidade – recriminou a senhora Marino. – E então, senhor Kalhani? Conseguiu falar com o hospital? Este socorro vem quando, afinal?
- Assim que seja possível. Sem previsão. Foi somente o que obtive deles – respondeu, baixando a cabeça desanimado.
- O velho não agüenta tanto! – exasperou-se Norton.
- Pobrezinho... – lamentou She, logo acompanhada Female. – Ele vai morrer e não vamos poder fazer nada!
- Bom Deus, como tudo chegou a esse ponto? – sussurrou condoída a senhora Marino. – Até ontem ele estava normal, do jeito reservado dele. E hoje...
- Não percebem que se alguém deseja a morte, não existe remédio ou tratamento que salve? Nem mesmo sua preocupação e esforços? – observou Ericsson, conformado.
Antes de imaginar um argumento contrário percebi, assim como os demais, que nosso investigador lançara um clarão nas trevas. Não compreendíamos ainda, em nossa ignorância, qual seria o motivo, portanto todos permaneceram calados. Todavia, tornava-se inegável que aquela inusitada e esdrúxula situação apenas poderia mesmo ser explicada convincentemente pelas palavras dele, por mais dolorosas que fossem: o velho Lars decretara sua hora de partir.
- A resposta sobrevive ao redor de vocês, meus amigos – prosseguiu Ericsson. – O passado do ancião o assombrou noite após noite. Suas lembranças o traíram e desertaram. Lutou contra elas bravamente. A noção da perda era insuportável. Depois tentou desesperadamente resgatá-las, empenhou-se nisso e finalmente, vencido, entregou os pontos.
Ele apontou o desenho, os restos de argila, os apetrechos espalhados e bateu na ponta dos próprios dedos.
- Um rosto de mulher foi tudo que sobrou. Aquela que amou um dia e provavelmente por toda a sua vida. Mas o tempo prega peças na memória. A velhice cobra um preço bastante caro. Lars percebeu que a imagem dela se desvanecia e escapava. Procurou primeiro desenhá-la. Muito pouco para quem amou tanto. Então tentou moldá-la em barro ou argila. Esculpir um busto que lhe fizesse companhia e alimentasse a alma saudosa. Notem que é uma figura de outra época, um vulto distante da juventude. Talvez uma paixão única e jamais consumada. Como saber? Infelizmente, faltou-lhe capacidade para criar a forma tão desejada. E diariamente o fruto do fracasso era colocado em sacos de lixo que empurrava até à calçada. Achou mais fácil trabalhar na calmaria da noite e dormir durante o dia. A rigor, com exceção disso, ao contrário do que especulávamos, não saía mais para absolutamente nada.
Ericsson enrolou cuidadosamente a gravura que abrira na mesa.
- O velho Lars trabalhava nesse móvel. Observem que os arranhões das espátulas, plainas e pás marcaram a superfície, acabando por serem vedados pelos restos do material avermelhado que raspava ou misturava com água nas bandejas. Utilizava a geladeira como local de secagem rápida da mistura, produzindo uma massa consistente. O interior de suas unhas está impregnado, tal como o desenho que manuseava, recorrendo como modelo. No entanto, ele desistiu de lutar contra o esquecimento e a impossibilidade de reviver a jovem que tanto amou. Aos poucos se largou, deixou de comer e cuidar de si. Aquele saco junto da cama, de onde retirei o nariz e a orelha, são o tributo derradeiro ao crepúsculo dessa paixão avassaladora. O momento em que decretou o final das tentativas e decidiu morrer na esperança de reencontrá-la noutro lugar...
Ele fora bastante racional e lógico, porém num tom solene carregado de emoção. Não havia quem escapasse à compaixão oriunda de tais revelações, imaginando aquele homem anos a fio na sua luta inútil de concretizar a fisionomia que conquistara seu coração e povoara seus sonhos. Não consegui perceber meus olhos úmidos, a despeito do meu desejo nesse sentido, mas o de todos os presentes estavam. As idéias espocavam soltas na minha mente, se iniciando de um jeito e desenvolvendo de outro, sem encontrar um final coerente.
Houve quem sugerisse que não deveriam continuar ali, respeitando a privacidade e o estado de Lars. Claro que ninguém cogitou deixá-lo abandonado até que o atendimento médico comparecesse. Assim, aos poucos, aquele exército da salvação começou enfim a debandar. Kalhani, como responsável e proprietário, de imediato se prontificou a permanecer. O Zumbi, debilmente, apenas escorou-se num canto próximo à cama, mantendo sua passividade inabalável. Também resolvi ficar, embora não compreendesse o porquê dessa decisão. Algo me dizia que aquilo não terminara, que minhas lágrimas talvez ainda escorressem. Ericsson, assim como os demais, veio então se despedir. Considerava a missão encerrada e ansiava pelo aconchego do próprio quarto. Pelo jeito que Larissa se dependurava nele, seu esperado descanso seria adiado e ela, mesmo afônica, manteria a boca ocupada toda manhã. Aliás, todos pareciam ter formado pares, inspirados pelo sentimento que consumira as últimas energias do velho morimbundo: Norton saiu puxando carinhosamente a senhora Marino pela mão, insinuando que ela poderia dispensar os vídeos eróticos pelo resto do domingo, enquanto as escandalosas She e Female, grudadinhas, apenas reafirmaram o afeto que nutriam uma pela outra.
Antes dos travestis partirem, consegui emprestado o espelhinho de maquiagem que carregavam na bolsa abarrotada. Era bastante complicado distinguir a respiração do velho Lars. O corpo parecia mergulhado em irrestrita imobilidade, sem reações perceptíveis. Enquanto Kalhani sentara-se à mesa e fechara os olhos para entoar um “cântico de cura”, me aproximei resoluto do rosto de Lars, silenciosamente.
Posicionei o espelho abaixo de suas narinas e ligeiramente inclinado sobre a boca de lábios delgados e descoloridos, aguardando que o embaçamento revelasse um vestígio de vida naquele organismo alquebrado. Entretanto, acima das mais loucas expectativas, o susto me fez levantar, derrubar o objeto que estilhaçou-se no piso e recuar na direção do Zumbi. Não havia capturado um reflexo do velho, como se ele fosse um fantasma ou sequer estivesse presente.
Kalhani, imerso na sua cantilena monótona, não despertou com meu sobressalto. O Zumbi mantinha-se impassível como antes. Uma outra surpresa foi observar o esforço hercúleo do velho Lars em abrir os olhos vazios, esboçar um sorriso doloroso e chamar-me para perto de si com o indicador descarnado. Ele procurou ser prosaico e adicionar vivacidade ao convite. Porém a espuma saindo pela boca denunciava o limite da sua condição. Sua inofensividade era tão patente que automaticamente caminhei na sua direção, aceitando aquela convocação. Sentei na beira da cama, baixando o ouvido o mais perto possível de sua face. A voz quase inaudível, trêmula, soou como um gongo que despertasse minha alma.
- Seu amigo estava certo, meu irmão de fileiras... Eu a perdi há tantos séculos... Não sei mais quantos... Nem minha memória conseguiu conservá-la... A imortalidade perdeu o encanto. A eternidade virou um fardo insuportável... A hora chegou, já posso e quero partir. Assuma meu lugar, faz parte do seu destino... Devemos cuidar dos humanos, como tomei conta daquele que chamam Zumbi... Suguei boa parte do sangue dele, como faço somente com os que não amam ou respeitam a vida, seja própria ou alheia. Isso se percebe ao vasculharmos seus espíritos e consciências. Reparou como eles são facilmente influenciáveis pela nossa vontade ou ânimo? Não somos os montros retratados pela tradição. Ao contrário, constituímos os maiores justiceiros da raça. A condição de vampiro exige entrega e dedicação. Sinto que será um dos melhores, Zack...
- Acho que a falta de sono me deixou sonhando acordado - balbuciei.
- Não consegue dormir ao à noite, pois é uma criatura noturna. Seu organismo irá regularizar quando começar a beber sangue. Não será vítima de doenças mortais, seus dentes cessarão de doer e crescerão no instante necessário. Termine com o Zumbi, sem pressa. Eles se tornam letárgicos quando gradualmente os drenamos... Percebo que não acredita no que digo... Pense bem, Zack... A comida não lhe provoca repulsa? Não costuma sentir-se destinado a algo maior que o mero sucesso mundano ou organizar seus pertences? Não escuta através da madrugada sons que ninguém detecta? Seus ouvidos aflorados não ouvem ao longe asas batendo, roedores devorando sua presa e a baixeza dos indivíduos nocivos que arrancam a alma dos semelhantes? E, finalmente, não acha todos eles banais, repetitivos, previsíveis ou insípidos? Soa familiar? Representa uma outra estirpe de seres... Você acostumará agora que possui essa consciência... Sua transformação se iniciará em seguida...
Foram estas suas últimas palavras. Apagou-se como uma vela que consome o pavio. Sem alarde ou aviso, a conseqüência direta da decisão de abrir mão da vida eterna, da necessidade de tomar o sangue dos que não merecem a dádiva superior de existir. Nunca saberei porque aquele amor imenso não frutificou, que mecanismos os afastaram de compartilhar a felicidade. De qualquer forma, aquilo perdera a importância. O velho Lars não precisaria mais arrastar em monotonia os restos de uma lembraça esmaecida pelo tempo. Agora repousava ao lado da mulher amada, saboreando o genuíno estágio da evolução.
Tratei de me afastar discretamente. Meus movimentos doravante eram de uma criatura sutil, que não deixa vestígios materiais por onde transita. Minhas pegadas de volta sequer ficaram marcadas no assoalho imundo. Puxei o Zumbi pelo braço e desci com ele até seu andar. Estava sob minha exclusiva responsabilidade e, ao anoitecer, cuidaria dele, seguindo as indicações do velho Lars, meu nobre irmão de fileiras. Dirigindo-me ao meu quarto discerni claramente, como se nada existisse impedindo, os ardentes ruídos de Ericsson e da senhora Marino fazendo amor. E também os de Norton e Larissa, mesmo ele machucado para se contorcer ou ela afônica para gemer. Os de She e Female pareciam situados dentro dos meus aposentos, assim como o cântico enjoado de Kalhani vários andares acima. Os sons ganhavam uma dimensão extra. Não meramente os identificava, mas os dimensionava ante minha percepção e julgamento.
Estava exausto. A manhã avançava e precisava dormir para minha primeira vigília noturna. A existência caótica ganhara um significado palpável. O instinto bloqueava provisoriamente meus novos e aguçados sentidos, proporcionando as condições ideais de descanso. Enquanto a letargia vampiresca se espalhava, refleti sobre quantos amores poderia conhecer e perder nos séculos vindouros. Ou quanto tempo transcorreira até a solidão me esgotar e fazer desejar seguir o rastro do velho Lars, imitar aquele êxtase supremo de desencanto que agora trazia um nó à garganta e sufocava o peito. As lágrimas finalmente escorreram dos olhos e aqueceram minha face, rolando livres ao infinito como meu espírito inquieto.
Uma tarefa árdua acenava à frente, cobrando o melhor da essência imortal que dispunha. Refleti poucos segundos antes de adormecer se algum daqueles pitorescos companheiros de moradia exigiria meus caninos cravados em seu pescoço, me provocando um sorriso compreensivo que dava boas vindas aos sonhos. Intimamente, com exceção do Zumbi, os sabia dignos de indulgência. Apesar dos erros, defeitos, malícias e vícios nenhum deles, a rigor, comprometia o equilíbrio vigente.
Afinal, apenas algumas horas atrás , cada um havia demonstrado ser um bom vizinho.